Pedro Martins e Ronaldo durante encontro na Toca da Raposa II
Depois de três anos caóticos em 2019, 2020 e 2021, além de outros momentos turbulentos na última década, o Cruzeiro dá mostras de que começou a recuperar sua credibilidade no mercado do futebol.
Para além de resultados, como o acesso antecipado à Série A, a indústria do futebol leu, em 2022, mudanças claras na forma de administrar e na capacidade das figuras que passaram a representar o clube.
Ao longo da última semana, o Superesportes ouviu pessoas conceituadas no mundo da bola. Todos, sem exceção, concordam com a tese de que a presença de Ronaldo, hoje dono de 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Cruzeiro, acelerou o processo de recuperação do clube e poderá gerar benefícios já no curto prazo.
"O Cruzeiro nunca deixou de ser o Cruzeiro, mas quando você vira empresa, tudo muda. Ainda mais quando você tem um dono como o Ronaldo, que é o Pelé da minha geração. Ele transmite, por si só, uma credibilidade que atrai coisa boa", avalia Fábio Mello, que tem em sua carteira jogadores como Fred, do Manchester United, e Veron, do Porto.
"A hora que o clube tem as duas pontas, se transforma em empresa e tem pessoas sérias e com credibilidade, o resultado vem e há aproximação do mercado novamente. Não foi o retorno à Série que reaproximou o mercado, foram a transformação e as figuras", explicou o empresário.
A opinião de Fábio é compartilhada por Marcos Motta. O advogado participou, como consultor jurídico, das principais negociações envolvendo jogadores brasileiros pelo mundo nos últimos anos. A mais importante delas foi a venda de Neymar do Barcelona ao PSG, em 2017.
"Conheço o Ronaldo há 15 anos. Ele tem uma aura que, sem dúvida nenhuma, é atrativa. É um cara especial, que tem uma visão de negócio muito interessante", analisou Motta, que ainda relatou como o mercado recebeu as primeiras ações do Fenômeno no Cruzeiro.
"Desde que chegou, ele deu um choque de realidade, fez um alinhamento de expectativa. O mercado lê isso de maneira muito positiva. Em função desse choque, você cria um ambiente muito propício para um projeto desportivo consistente. O mercado já leu isso", garantiu.
Dá para disputar craque?
Depois do acesso à Série A garantido pelo Cruzeiro, o torcedor passou a imaginar como será o 2023 na Toca da Raposa II. Apesar da reestruturação, o clube celeste ainda passa por dificuldades financeiras, e Ronaldo não tem o mesmo poder econômico para realizar aportes do mesmo nível de alguns adversários do futebol brasileiro.
Contudo, diferentemente de outros investidores, Ronaldo é uma figura internacionalmente conhecida. Referência para muitos. Isso, somado ao projeto da SAF, poderá colocar o Cruzeiro na disputa por grandes jogadores, avaliam os analistas.
"Acredito que, com o Ronaldo, o Cruzeiro aumenta o nível competitivo e pode concorrer (com outros gigantes) no mercado. Acho que o modelo de ter um clube com dono que tem uma equipe na Europa também sai na frente", lembrou Mello. O Fenômeno detém a maior parte das ações do Real Valladolid, da Espanha.
"Se o Cruzeiro continuar pagando salário em dia e os clubes, nos negócios que tem feito, volta a ser um clube que todo jogador quer vestir a camisa. A presença enorme do Ronaldo ainda tem muita influência no convencimento", opinou Neto Meinberg, membro da equipe de Giuliano Bertolucci, o principal agente do país.
Embora tenha optado por não se alongar na resposta, o empresário Frederico Pena, CEO da gigante TFM Agency e responsável pela carreira do atacante Vinícius Jr, é outro que afirmou concordar com a tese de que os grandes jogadores passam a recolocar o Cruzeiro como um destino atrativo.
Para Marcos Motta, todo o cenário, neste momento, é muito favorável ao Cruzeiro. "Eu não sei se vai trazer o Neymar, o Mbappé, o Messi. Não é essa a discussão. Eu nem acho que o Ronaldo vai fazer contratação bombástica para 2023", avaliou.
"Mas eu garanto que, hoje, o Cruzeiro, dentro de todas as dificuldades que tem, já encontra um ambiente propício para estabelecer um plano de ação sólido e duradouro. Isso, agregado à figura do Ronaldo, é muito favorável", finalizou o advogado.
O que vem por aí?
Em 2022, a administração da SAF precisou mudar as rotas previamente definidas pela cúpula da associação. Ronaldo e seus diretores anularam contratações, construíram novos acordos e planejaram um gasto bem menor do que o previsto para a temporada.
1991: o Grêmio caiu para a segunda divisão pela primeira vez em sua história, mas garantiu o retorno à elite no ano seguinte, em 1992, após terminar em 9º na Série B - foto: Correio do Povo1993: no ano de retorno para a primeira divisão, o Grêmio foi campeão do Campeonato Gaúcho e chegou na final da Copa do Brasil, mas perdeu para o Cruzeiro. Na Série A, não chegou a classificar para a segunda fase - foto: Grêmio/Divulgação1996: o Fluminense foi rebaixado para a segunda divisão, mas o descenso foi cancelado pela CBF devido a escândalos de arbitragem - foto: Reprodução1997: após escapar no ano anterior, o Fluminense foi rebaixado para a Segundona, mas, como se não bastasse, em 1998, o Tricolor Carioca ainda caiu para a Série C. A redenção viria em 1999, quando o clube conquistou o título da terceira divisão e se classificou direto para a elite do futebol brasileiro por questões de regulamento - foto: Reprodução2000: no retorno à Série A, o Fluminense não fez boa temporada, sendo eliminado nas quartas de final da Copa do Brasil e nas oitavas do Campeonato Brasileiro - foto: Jornal dos Sports2002: o Palmeiras caiu para a segunda divisão, mas, em 2003, venceu a Série B e retornou à elite do futebol brasileiro como campeão - foto: DIGITAL MARCIO FERNANDES/AE2004: em um ano razoável, o Palmeiras não levantou nenhuma taça, mas conquistou vaga na Libertadores de 2005 devido à 4ª colocação no Brasileiro - foto: Jorge Gontijo/Estado de Minas2002: na base do 'ping-pong', o Botafogo foi rebaixado para a segundona e voltou no ano seguinte, em 2003, como vice-campeão - foto: Bruno Domingos/Lancepres2004: em uma temporada ruim, por pouco o Botafogo não foi rebaixado novamente à Segundona. Isso porque, o Glorioso terminou o Campeonato Brasileiro em 20º colocado - primeiro time fora do Z4 - foto: Auremar de Castro/Estado de Minas2004: após ser rebaixado, o Grêmio conquistou o acesso e o título da Série B logo no ano seguinte, em 2004, em um dos mais históricos jogos do futebol brasileiro, contra o Náutico, na 'Batalha dos Aflitos' - foto: Jorge Gontijo/Estado de Minas2006: o retorno do Grêmio para a primeira divisão foi positivo. Na temporada, o time foi campeão do Campeonato Gaúcho, terminou em 3º colocado no Brasileiro e garantiu vaga na Copa Libertadores - foto: MARCOS D'PAULA/AGÊNCIA ESTADO/AE2005: o Atlético foi rebaixado para a Segundona pela primeira e única vez na história, mas conseguiu o acesso no ano seguinte, em 2006, ao terminar como campeão da Série B - foto: Paulo Filgueiras/Estado de Minas2007: no ano de retorno à primeira divisão, o Atlético foi campeão do Campeonato Mineiro e terminou em 8º no Brasileiro - garantiu vaga na Copa Sul-Americana - foto: Jorge Gontijo/Estado de Minas2007: o Corinthians foi rebaixado para a Série B, mas montou um grande elenco e conquistou o acesso logo em 2008, ao ser campeão com uma das melhores campanhas da história do torneio - foto: PAULO PINTO/AGENCIA ESTADO/AE2009: já com uma base de time forte, o Corinthians se reforçou com um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, o atacante Ronaldo Fenômeno. E deu resultado! O Timão fez grande ano ao conquistar o Paulistão e a Copa do Brasil - foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press2008: pela primeira vez na sua história, o Vasco da Gama foi rebaixado. O clube terminou o Brasileirão em 18º, mas retornou, em 2009, como campeão e com uma vantagem de sete pontos na liderança da Série B - foto: JEFFERSON BERNARDES/VIPCOMM2010: no seu primeiro retorno à elite, o Vasco terminou o Brasileirão no meio de tabela, precisamente na 11ª posição. Na Copa do Brasil, o clube carioca chegou às quartas de final, quando foi derrotado pelo futuro vice-campeão Vitória - foto: REUTERS/Bruno Domingos2012: no mesmo ano em que venceu a Copa do Brasil, o Palmeiras foi rebaixado ao ficar em 18º. 11 pontos atrás do 16º colocado. Já em 2013, o clube liderou a Série B e terminou o torneio como campeão, com uma vantagem de 20 pontos para o quinto colocado. - foto: REUTERS/Paulo Whitaker2014: no retorno à Série A, no ano do seu centenário, o Palmeiras ficou muito próximo de voltar à segunda divisão, visto que se livrou do rebaixamento apenas na última rodada. O Verdão terminou o Brasileirão com apenas 40 pontos em 38 jogos - foto: REUTERS/Paulo Whitaker2013: o Vasco foi rebaixado para a segunda divisão e, com uma campanha razoável, terminou a Série B de 2014 em terceiro colocado - o suficiente para garantir o acesso - foto: GERALDO BUBNIAK/FOTOARENA/ESTADAO CONTEUDO SC2015: o ano de retorno do Vasco para primeira divisão começou de forma positiva. O time foi campeão do Campeonato Carioca, mas terminou a Série A em 18º lugar e foi novamente rebaixado para a Segundona - foto: PAULO CAMPOS/ESTADAO CONTEUDO RJ2017: após fazer um 'bate e volta' da Série A para a B em anos anteriores, o Vasco retornou à elite em grande fase. O Cruzmaltino terminou a Primeirona em 7º lugar e se classificou para a pré-Libertadores - foto: Leandro Couri/EM/D.A Press2014: do sonho ao pesadelo. O ano de 2014 começou com muita empolgação no Botafogo, já que o clube estava retornando à Libertadores depois de 18 anos. Porém, a crise tomou conta e o time terminou o Brasileirão em 19º, alcançando o seu segundo rebaixamento na história. No entanto, o retorno foi imediato em 2015 com direito a título da Série B - foto: ANDRE MOURAO/AGENCIA O DIA/ESTADAO CONTEUDO RJ2016: logo após retornar à Série A, o Botafogo foi muito bem no Brasileirão e terminou em 5º, voltando à Libertadores. O destaque da temporada foi Jair Ventura, treinador que acabara de surgir - foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press. Brasil2016: o primeiro e único rebaixamento do Internacional ocorreu no mesmo ano que o time foi semifinalista da Copa do Brasil, competição vencida pelo maior rival Grêmio. O sucesso do adversário local seguiu em 2017, já que o Tricolor foi campeão da Libertadores, enquanto o Inter retornou à Série A, mas sem o título: ficou com o vice-campeonato da Série B - foto: FABIO MOTTA/ESTADAO CONTEUDO2018: o Inter voltou com tudo e terminou a Série A na terceira posição, retornando imediatamente à Libertadores e ficando à frente do rival Grêmio na tabela. O destaque da campanha do Colorado foi a manutenção do técnico Odair Helmann, que comandou o clube na Série B e em toda a temporada de 2018 - foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press2020: pela terceira vez na história, o Botafogo foi rebaixado, mas, assim como nos outros descensos, o Glorioso conquistou o acesso de forma subsequente, em 2021 - desta vez, como campeão - foto: Divulgação 2022: além de voltar à elite nacional, o Botafogo se tornou SAF e foi comprado por John Textor. Apesar das grandes expectativas, o Glorioso faz temporada razoável - foto: Vitor Silva/Botafogo
Ainda assim, foram certeiros e reforçaram o elenco de forma cirúrgica ao longo da temporada. Para 2023, o Cruzeiro já garantiu, por exemplo, dois de seus destaques na Série B. O zagueiro Oliveira e o meio-campista Neto Moura foram comprados e assinaram novos contratos.
A atuação no mercado deverá buscar, sobretudo, a criatividade. Depois da vitória por 3 a 0 sobre o Vasco, na última quarta-feira (21), quando o Cruzeiro confirmou o acesso matemático à Série A, Ronaldo disse que o 'talento' de sua equipe poderá superar a falta de dinheiro.
"Não podemos esquecer da imensa dificuldade que vamos enfrentar ainda financeiramente, mas vamos dar um jeito. Temos uma equipe talentosa demais e vamos compensar, talvez, a falta de dinheiro, com nosso sacrifício, esforço e talento", disse o Fenômeno à TV Globo.