
“Ao longo desses anos, o Cruzeiro deixou de pagar os custos dos jogos. Lembrando que o Cruzeiro não paga aluguel, ele paga os custos dos profissionais envolvidos na operação. Tem sete anos que o Cruzeiro deixou de pagar e a gente vem notificando o clube. Já deve ter mais de uma centena de notificações. Essa é mais uma notificação. Foi enviada em 3 de abril e pede ao clube que se posicione em relação à dívida total de R$ 26 milhões. Entre 2013 e 2015, são R$ 12 milhões em dívidas. Em 2016 e 2017, R$ 12 milhões e 400 mil. Na nova gestão do Wagner e do Itair já soma R$ 1.865.934.79”, disse o diretor comercial da Minas Arena, Samuel Lloyd.
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O gestor da Minas Arena explicou as dívidas do Cruzeiro ao Superesportes, após entrevista do vice de futebol do clube, Itair Machado, à Rádio 98 FM. Segundo Itair, a Minas Arena ameaçou romper o contrato caso o clube não quite os débitos e criticou Lloyd.
"A Minas Arena notificou o Cruzeiro dando 30 dias para rescindir o contrato com o clube. Mas a gente não acredita neste relacionamento, até porque um dos líderes lá é atleticano, fica puxando saco do Alexandre Kalil nas redes sociais, o Samuel (Lloyd, diretor da Minas Arena), todo mundo viu as postagens dele com o Kalil, toda a movimentação dele é para prejudicar o Cruzeiro", disse Itair Machado.
Lloyd diz não ter nenhuma relação com o ex-presidente do Atlético e atual prefeito de Belo Horizonte. “Nem sei do que ele está falando, não tenho relacionamento com o Kalil. Até gostaria de ter, porque tem um histórico vencedor, de títulos, até como o próprio Itair. São duas pessoas que respeito. Não tenho time, sou filho de mãe atleticana com pai cruzeirense, na minha casa a convivência é pacífica. Acho que está na hora de parar de dirigente jogar uma pessoa contra a torcida. Essa dívida não justifica que qualquer dirigente jogue a torcida contra mim. Mas isso não tira os méritos do Itair, que trouxe títulos para o Cruzeiro já no primeiro ano. Com essa nova diretoria do Cruzeiro, inclusive, temos um panorama mais positivo em relação à anterior. Essa reconheceu que devia e começou a pagar, por isso essa dívida não está tão grande quanto a da gestão anterior. O que gostaria era de chegar a um acordo com o Cruzeiro. Estamos em um limite financeiro, queremos que o Cruzeiro pague, porque os custos do Mineirão são baixos, mesmo cobrando uma média de R$ 16 por ingresso no último jogo, o Cruzeiro saiu com receita líquida positiva”, afirmou
Itair Machado reclamou da relação com a Minas Arena. Segundo ele, a administradora chegou a fechar uma sala do estádio na qual esposas e filhos dos jogadores ficavam descansando, com a justificativa de que o clube teria que alugar o espaço.
"Teve um dia que um achei desumano. Foi ano passado, as esposas dos atletas ficam com as crianças esperando em uma sala com sofá e tudo. Você acredita que eles fecharam a sala, não deixaram, e falaram que só se alugasse? Eu mandei o recado: ou abre a sala ou nós vamos arrombar, porque entendo que aquilo é nosso. 'Ah, mas tem PPP (parceira público privada)', mas o Cruzeiro não reconhece isso. Aquilo é do povo, quando o Atlético, o América, os times do interior quiserem jogar no Mineirão, vão jogar, aquilo é do povo", bradou.
Lloyd deu outra versão para o caso: “Na verdade, o Cruzeiro tem um acordo comercial com relação a esta sala. A partir do momento que o Cruzeiro deixou de pagar, a gente fechou a sala. Mas de maneira nenhuma estas pessoas ficaram desamparadas. Tem outros locais no estádio. Mas esta sala, com sofá, mais cômoda era um acordo, como o clube ficou inadimplente, foi descontinuado. Quando o clube voltou a pagar, reabrimos a sala”, afirmou.
O Cruzeiro diz ter a intenção de administrar o estádio e, inclusive, já conversou com o atual governador, Romeu Zema, sobre os problemas da Minas Arena. De acordo com Itair Machado, a empresa não cumpriu alguns pontos do contrato. Ele citou a expansão do estádio que deveria ter sido realizada pela Minas Arena.
"O Mineirão é para o futebol. Nós estivemos com o governador agora, tem uns 15, 20 dias, entregamos o ofício, explicamos a situação e dissemos que o Cruzeiro quer administrar o Mineirão. Para ele (Zema) levantar os erros que tem lá, acabar com o contrato dessas empresas, aliás tem uma da Lava Jato, não sei te falar qual, eu tenho notícia que a Assembleia vai abrir uma CPI. Acho bom, porque aquilo é do povo mineiro, é a Toca 3 de direito nosso. O Cruzeiro priorizou o Mineirão e aquilo virou a Toca 3, e ninguém vai mudar esse nome. Você bate no Google que está aí, Toca 3 é Mineirão", disse.
A empresa citada por Itair é a HAP Engenharia, que integra o consórcio Minas Arena. Em depoimento em 2017, o empresário Joesley Batista disse que comprou 3% das ações da empresa para repassar 30 milhões ao ex-governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, em caixa 2 para campanha. Pimentel nega ter sido beneficiado. Na época, a HAP confirmou a venda, mas disse que os recursos foram destinados à operação da construtora, não tendo havido repasse de qualquer valor ao referido político. A CPI do Mineirão, que poderia investigar a construção do estádio, foi barrada várias vezes na Assembleia Legislativa.
"Quem é Minas Arena para prejudicar o Cruzeiro? Mas não vai mesmo. Do mesmo modo que no Rio de Janeiro, o governo rescindiu o contrato, um dos motivos foi que eles não cumpriram com a extensão do estacionamento. Inclusive esse contrato deve ser público, vou mandar cópia para vocês cobrarem o que a Minas Arena tinha para fazer e não fez. Ela tinha que aumentar o estacionamento e não aumentou, é o mesmo problema que rescindiu no Rio de Janeiro", disse Itair Machado.
Para que o estado consiga reaver o Mineirão, precisa alegar deficiência na gestão da Minas Arenas e demonstrar descumprimento de pontos importantes do contrato. Outra hipótese seria ressarcir a empresa, que assumiu um empréstimo de R$ 400 milhões com o BNDES para tocar as obras, e pagar uma multa contratual. Dada a situação financeira do estado, dificilmente isso ocorreria.
Perguntado se a Minas Arena rompesse com o Cruzeiro e não abrisse o estádio para o clube, Itair chamou a responsabilidade para o governador: "A torcida vai lá e abre (o estádio para o Cruzeiro jogar). Aquilo é do povo, é de futebol, não é para show. 'Ah, mas tem PPP'. Governador vai ter que ser macho, vai ter que tomar uma posição. Acho que o governo tem que consertar o erro que foi cometido, de dar nosso patrimônio com contrato longo para empresas que só olham o dinheiro, não olham o entretenimento do povo", frisou.
A Minas Arena frisou desconhecer qualquer movimento para que o estádio deixe de ser administrado pela empresa. “Desconheço totalmente. A gestão da Minas Arena é muito bem avaliada, o governo contrata auditorias independes para fazer a avaliação da gestão e os nossos índices são excelentes, com exceção do financeiro, que poderia estar melhor se o Cruzeiro estivesse pagando. Orgulhamos de ser o estadio público mais bem administrado do Brasil”, frisou Lloyd.
Itair ainda afirmou que vai cobrar uma eventual multa caso o estádio não esteja apto a receber jogos do Cruzeiro no período em que o Brasil sediar a Copa América deste ano. A CBF já anunciou que vai paralisar o calendário do futebol brasileiro durante o período do torneio. "O contrato diz que o Cruzeiro não tem que deixar de jogar lá por causa de Copa América. O Cruzeiro não tem que abrir mão de Mineirão. Cada jogo que o Cruzeiro não puder jogar lá, eles vão pagar R$ 2 milhões. Tem jogos que você não vai poder jogar no Mineirão. O Cruzeiro não vai concordar, o Cruzeiro vai cumprir o contrato. Ele notificou o Cruzeiro para cumprir o contrato. Bacana! Eles também terão que cumprir".
A Minas Arena informou que vai cumprir o contrato: “Nosso contrato com o Cruzeiro, caso o Mineirão não esteja disponível, tem uma multa. Não entendi de onde ele (Itair Machado) tirou a ideia de que não estaremos à disposição. Vamos cumprir o contrato. Nosso contrato com a Copa América não impede que o Cruzeiro faça os jogos no estádio”, disse Lloyd, que ainda deixou um recado para o torcedor do Cruzeiro. “Queria dizer que as histórias do Mineirão e do Cruzeiro são muito maiores que essas atuais gestões. Os torcedores consideram o Mineirão a sua casa, e o Mineirão sempre estará de braços abertos para recebê-los, e qualquer questão é fato isolado em mais de 50 anos de relação. Os torcedores podem sentir que têm as portas abertas sempre”.